eramos todos demasiado novos nessa altura

namorávamos a sério. seríamos namorados para sempre e amigos até ao fim da vida. sabíamos como iriam ser as nossas casas e que iríamos viver juntos. sabíamos que cursos iríamos frequentar. que profissões iríamos ter. acreditávamos em tudo isso sem o mínimo despejo ou sentimento de ilusão. acreditávamos a sério, mesmo a sério. se alguém nos perguntasse, nessa altura, saberíamos que agora ainda estaríamos a trocar cartas de amor e que os nossos amigos estariam, certamente, a fazer o mesmo. estávamos felizes e acreditávamos, mesmo, nessa felicidade. tenho a certeza disso. tenho a certeza de que se alguém nos perguntasse se iríamos casar, todos diríamos que sim. sabíamos já o nome dos filhos que teríamos e onde é que iríamos morar. mais, sabíamos que voltaríamos a casa com os nossos filhos ao fim do dia e que falaríamos com eles sobre o seu dia de escola.
tenho a certeza de que se nessa altura eu tivesse um blog, todas estas coisas em vez de estarem compactadas em caixas que não abro, estariam numa blogosfera repleta de comentários assertivos e promissores. tenho a certeza de que não fui eu ou ele que pensamos nisso. fomos todos.
sabíamos quem iria estar feliz e, mais do que isso, tínhamos a certeza de que esses seríamos nós. que nós seríamos os tais da profissão, do casamento, dos filhos e das viagens a casa. falávamos em tom de gozo sobre o T0 na Buraca, mas a verdade é que até esse T0 era repleto de imagens de carinho e boa-disposição.
por agora temos T0s, temos as casas dos nossos pais, temos outros namorados. não temos namorados. não temos filhos. alguns têm profissão e outros vivem do tempo. esgotam-se no tempo em procuras loucas e intermináveis. procuram ainda aquilo com que sonhavam quando eram novos. mas eram novos de mais. a verdade é essa. éramos novos de mais.

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a maioridade (ou a maior idade!)

o que nos trouxe a maioridade? ou a maior idade.

lembro-me bem do dia em que completei dezoito anos e de me dizerem tudo o que a partir daquele dia poderia começar a fazer. não queria nada. à exceção de votar, não queria nada. queria, tão simplesmente e só, continuar assim. com dezassete. na idade da felicidade. queria poder votar, mas continuar assim. viver no aconchego, estudar na escola secundária que fica ali ao fundo ao pé do LIDL – que já lá estava nessa altura.

com a possibilidade de votar, chegou a possibilidade de tirar a carta. de responder por mim, assinar por mim. ser total e socialmente responsável por tudo o que fizesse. e assim fui descobrindo a maioridade e deixando para tras essa maior idade que tinha conhecido.

e foram chegando as descobertas próprias da (maior) idade. boletins de voto enganados de tanta que era a nervoseira. viagens, estudos, novas casas. poder comprar bilhetes de avião sem autorizações especiais, sim. chegou o trabalho, o quintal. novos abraços. com a perda da maior idade chegaram aprendizagens socialmente pouco importantes. chegaram gestos de simpatia mais triviais e cuidados e menos espontâneos. chegaram preocupações sociais a que a maior idade nunca deu espaço. a maior idade quer andar nos autocarros à borla. quer beber cervejas durante uma noite inteira. ter conversas parvas e noites de amor. a maior idade quer a loucura que a maioridade não permite. a maioridade é toda responsavelzinha. e não há paciência para tanto sentido de auto-controle. a maior idade fala alto nos autocarros e nos elétricos. canta alto e dança quando lhe apetece dançar. a maior idade ergue os pulsos quando é preciso e desce a avenida a correr (e de costas!). a maior idade é um espetáculo de filha da mãe sem juízo e eu cá adoro-a. eu gosto de rodopiar de mãos dadas à porta da escola secundária e de cair de cabeça enfiando os dentes num didjiridu. eu cá gosto de bilhetinhos trocados nas aulas. de poemas parvos nos livros de Português A. eu cá até gosto da professora de Métodos, da Brócula e da Gamba. elas faziam-nos rir, pah. acham que agora teríamos a irresponsabilidade feliz de rir e sorrir com tais personagens? claro que não. seríamos imaturos, insensatos e insensíveis se o fizessemos. que parvoíce. elas é que não tiravam o bigode, tinham cabelos de caniche e unhas dos pés que pareciam beterrabas (realmente, aquilo parecia muito mais uma beterraba!). eu cá gosto de andar descalça e de não pensar que o meu útero há-de secar por isso. a maioridade faz-nos pensar na maternidade e no casamento. mais do que no romance e na loucura desenfreada desse amor. a maioridade social é chata. faz perguntas. então e quando é que casa? quando já está: então e para quando o primeiro bebé? e o segundo? e, oh que azar, teve dois meninos, para quando a menina? epa. deixem-nos ser jovens e viver as maiores idades que são essas da juventude. esqueçam os bebés e os maridos. a roupa engomada. esqueçam até os dias de trabalho. não se metam, suas cuscas. eu cá quero viver na idade maior. e estar permanentemente tremente quando entro no autocarro. quero ficar com as mãos geladas pelas cervejas e colecionar bilhetinhos. eu quero votar mas não quero assinar tudo. quero deixar espaço para ti e para ti. para essa nossa loucura. para essa dança avenida a baixo.

(no dia da maioridade ainda não escrevia com o novo acordo ortográfico)

ao João. que gosta de andar em autocarros sem pagar. não gosta de cerveja, mas gelam-lhes as mãos da sangria. gosta de dançar. ergue os pulsos. não sabe cantar mas canta boas cantigas. não conhece a maioridade mas detesta-a pela convenção social que carrega.

disso eu sei.

ao João que, a partir de hoje, já pode votar.

um beijinho para ti. agora maior de idade.

Rita.

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Imiona pozostają

chamava-se assim. em polaco. a primeira vez que convivi com estas palavras, elas não me diziam nada. depois de um exercício de tradução delicado, demorado e paciente, aconcheguei-as e guardei o seu significado. há nomes que ficam.

não tenho uma agenda. já tive. tinha uma em casa dos meus pais com os números de telefone de todas as minhas amiguinhas da altura. com o número daquele rapaz. agora já não tenho agenda. confio muito na minha memória e no espaço livre do cartão que tenho no meu telemóvel. não apago números. isso é verdade. há muitas pessoas de quem não sei nada há muito tempo e outras de quem não sei nada há tempo de mais. guardo a imagem dos seus sorrisos e de palavras que trocámos em encontros casuais e que, por alguma razão, nos pareceram motivo suficiente para ficarmos com os números de um e de outro.

não tenho pena e não guardo ressentimentos por isso. nunca me apeguei a muitas pessoas ao mesmo tempo e isso foi coisa que fiz sempre de modo intencional. eu não sei gerir sentimentos. não sei gerir pertenças. muitas amizades. não sei gerir o meu tempo e o espaço que tenho. e não quero. gosto de o ter arranjadinho. de o ter organizado. de saber onde encaixa bem cada umas das pessoas. não apago números porque gosto de me lembrar das caras das pessoas quando vejo o seu nome escrito no ecrã do meu telemóvel.

sei vários números de cor. e sei vários que não consigo associar a ninguém. isso não me deixa triste. deixa-me desconfiada sobre as capacidades colaterais da minha memória. se sei o número, porque é que não sei o nome?

e agora que penso nisso, isto é mesmo verdade. sei números a mais para pessoas a menos. já lhes devo ter telefonado ou mandado alguma mensagem, para saber agora agorinha o seu número de cor, mas não sei mesmo o que é que dizia tal sms ou se balbuciei palavras de ternura ou de desagrado nessa conversa. a verdade é que já falei com essas pessoas, pelo menos uma vez na vida.

das outras guardo o cheiro imaginário dos seus cabelos – imaginário, sim, porque a verdade é que a minha memória é grande porque a percentagem de olfato que me foi concedida à nascença foi, por engano, atribuída à percentagem de memória que, por direito, me pertencia. guardo os sorrisos, as palavras, as gargalhadas. as noites de conversa com o copo de pé alto na mão. com a cerveja na mão. com o cigarro na mão. as manhãs de conversa com o café na mão. as tardes de conversa com o molho dos caracois a escorrer pela boca. guardo os números de telefone. mas guardo mais. guardo as mensagens, as cartas, as fotografias. guardo os bilhetinhos trocados nas aulas e os rabiscos de afeto escritos no livro de História do décimo segundo ano.

destas pessoas, para além de saber os seus números de telefone e de não precisar de os ter no telemóvel ou numa agenda – se eu fosse pessoa de ter uma agenda -, sei os gostos. os cantores preferidos, as músicas preferidas, os livros preferidos e o filme que as faz chorar. destas pessoas sei as memórias, sei como foi tudo porque já me foi contado imensas vezes. em cafés matinais ou cervejas vespertinas. sei se gostam ou não de cerveja e se preferem moelas a caracóis. sei as alergias e os números de telefone. mas, mais do isso, associo-os às suas caras, sei que mensagens lhes mandei e que as palavras que trocamos foram, na maioria das vezes, de ternura. nem mesmo que depois das de zanga. mas também dessas me lembro. e é bom.

sobre a releitura de

Imiona pozostają. Há nomes que ficam. Pedro Mexia (in: Duplo Império) – que pode ser lido aqui.

um beijinho. mas, mais do que isso, um abraço a todos esses sobre os quais sei bem mais do que o número de telemóvel.

Rita

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é que é justamente isto que eu penso.

osculando-vos nas faces.

Rita

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a palavra amante é infinitamente mais bonita do que a palavra marido.

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um ano depois

volto a casa. como fiz há um ano atrás.

gosto desta casa. gosto de a ver cada vez mais preenchida e organizada. de a conhecer cada vez melhor. de acordar a meio da noite e já saber para que lado estou virada. de me poder levantar às escuras e não bater contra os móveis. de saber onde guardo tudo. onde estão já tantas recordações. tenho pena de não ter tempo para visitar mais vezes o quintal e de, durante o inverno, nõ gostar de o ver com folhas e coisas trazidas pelo vento. gosto dos pequenos almoços na mesinha azul. dos jantares naquilo a que a minha mãe chama de prateleira e não de mesa. tem razão. dos lanches sentada no sofá.

gosto de chegar a esta casa. mais do que a qualquer outra onde já vivi. de chegar sozinha. de chegar acompanhada. de chegar sozinha e receber companhias. de ficar sozinha.

são poucas as fotografias que tenho desta casa. mas são já muitas as memórias, as palavras e os abraços que dela guardo.

chegar a casa um ano depois é isto. e isto é bom.

um beijinho

 Rita

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há dias em que gostava de ter playlists mais organizadas

tenho duas no windows media player. uma com o nome da própria e outra que se chama erasmus. nesta última estão clássicos bons, maus, muito maus e mais ou menos. fazem parte os hits daquele ano, os clássicos da juventude, da infância ou da velhice da minha última encarnação. fazem igualmente parte as músicas das saudades, do amor e dos afetos, das noites loucas no komitet ou no lulu. depois enche-se de outras coisas (menos boas) que me faziam dançar em cima da cama a toda a hora quando morava no ikar. gosto desta playlist mas quase nunca a escolho.

a outra, a que tem o nome próprio de quem a fez, num ato de criatividade soberbo, também não está organizada. para lá são despejadas todas aquelas de que gosto. e, neste caso, só aquelas de que gosto. gosto, neste momento, de 181 horas e 10 minutos de música. é muito tempo de qualidade mal organizado.

se fosse agora tinha tudo em pastas temáticas organizadas segundo estados de espírito. há dias em que chego a casa e não quero ouvir a amourissima nem o samba do orpheu. há dias em que quero dançar, quero música para chorar, quero música bem disposta para limpar a casa a cantar, quero música tranquila, quero música de afeto.

não tenho nada que preveja isto. nada em que possa confiar a pontos de chegar a casa e clicar numa playlist que me acompanhe. ou faço uma seleção altamente demorada e trabalhosa ou limito-me, e isto é o que acontece quase sempre, a escolher o modo aleatório de reprodução.

num ato de desespero, quando já estou muito farta destas músicas desorganizadas, vou ao youtube – melhor invenção depois da roda e do fogo. má solução. primeiras impressões neste tipo de pesquisa completamente estúpida e desesperada:

música para dançar – Dança kuduro / salmos de David, música cristã / Un poquito de México

música para chorar – Pode chorar (um clássico de um brasileiro, daqueles bons) / TOP 10 Músicas Depressivas (que inclui coisas tão fantásticas como Cristina Aguilera e Avril Lavigne) / Susan Boyle I dreamed a dream

música bem disposta para limpar a casa - nada musical. só filmes com Anitas em ponto grande que ensinam a limpar uma casa em condições para conseguirem ter um marido à altura

música tranquila - música para escuchar en una tarde tranquila / música en armonia (e por aí)

música de afeto - a grande surpresa: aparece, nesta opção “com açucar com afeto”. sim, isso mesmo. Nara Leão e Chico Buarque. mas é uma pena que nem só de açucar se faz o afeto e, muito menos, de Nara Leão e Chico Buarque.

ficamos na mesma, portanto. hoje não quero limpar a casa nem dançar. nem mesmo chorar porque isso me dá cabo da maquilhagem que não uso, mas não sei por onde começar se quiser começar a ouvir música. é que tenho 181 horas e 10 minutos de opções.

ninguém disse que era fácil.

Rita

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