chamava-se assim. em polaco. a primeira vez que convivi com estas palavras, elas não me diziam nada. depois de um exercício de tradução delicado, demorado e paciente, aconcheguei-as e guardei o seu significado. há nomes que ficam.
não tenho uma agenda. já tive. tinha uma em casa dos meus pais com os números de telefone de todas as minhas amiguinhas da altura. com o número daquele rapaz. agora já não tenho agenda. confio muito na minha memória e no espaço livre do cartão que tenho no meu telemóvel. não apago números. isso é verdade. há muitas pessoas de quem não sei nada há muito tempo e outras de quem não sei nada há tempo de mais. guardo a imagem dos seus sorrisos e de palavras que trocámos em encontros casuais e que, por alguma razão, nos pareceram motivo suficiente para ficarmos com os números de um e de outro.
não tenho pena e não guardo ressentimentos por isso. nunca me apeguei a muitas pessoas ao mesmo tempo e isso foi coisa que fiz sempre de modo intencional. eu não sei gerir sentimentos. não sei gerir pertenças. muitas amizades. não sei gerir o meu tempo e o espaço que tenho. e não quero. gosto de o ter arranjadinho. de o ter organizado. de saber onde encaixa bem cada umas das pessoas. não apago números porque gosto de me lembrar das caras das pessoas quando vejo o seu nome escrito no ecrã do meu telemóvel.
sei vários números de cor. e sei vários que não consigo associar a ninguém. isso não me deixa triste. deixa-me desconfiada sobre as capacidades colaterais da minha memória. se sei o número, porque é que não sei o nome?
e agora que penso nisso, isto é mesmo verdade. sei números a mais para pessoas a menos. já lhes devo ter telefonado ou mandado alguma mensagem, para saber agora agorinha o seu número de cor, mas não sei mesmo o que é que dizia tal sms ou se balbuciei palavras de ternura ou de desagrado nessa conversa. a verdade é que já falei com essas pessoas, pelo menos uma vez na vida.
das outras guardo o cheiro imaginário dos seus cabelos – imaginário, sim, porque a verdade é que a minha memória é grande porque a percentagem de olfato que me foi concedida à nascença foi, por engano, atribuída à percentagem de memória que, por direito, me pertencia. guardo os sorrisos, as palavras, as gargalhadas. as noites de conversa com o copo de pé alto na mão. com a cerveja na mão. com o cigarro na mão. as manhãs de conversa com o café na mão. as tardes de conversa com o molho dos caracois a escorrer pela boca. guardo os números de telefone. mas guardo mais. guardo as mensagens, as cartas, as fotografias. guardo os bilhetinhos trocados nas aulas e os rabiscos de afeto escritos no livro de História do décimo segundo ano.
destas pessoas, para além de saber os seus números de telefone e de não precisar de os ter no telemóvel ou numa agenda – se eu fosse pessoa de ter uma agenda -, sei os gostos. os cantores preferidos, as músicas preferidas, os livros preferidos e o filme que as faz chorar. destas pessoas sei as memórias, sei como foi tudo porque já me foi contado imensas vezes. em cafés matinais ou cervejas vespertinas. sei se gostam ou não de cerveja e se preferem moelas a caracóis. sei as alergias e os números de telefone. mas, mais do isso, associo-os às suas caras, sei que mensagens lhes mandei e que as palavras que trocamos foram, na maioria das vezes, de ternura. nem mesmo que depois das de zanga. mas também dessas me lembro. e é bom.
sobre a releitura de
Imiona pozostają. Há nomes que ficam. Pedro Mexia (in: Duplo Império) – que pode ser lido aqui.
um beijinho. mas, mais do que isso, um abraço a todos esses sobre os quais sei bem mais do que o número de telemóvel.
Rita